sábado, 12 de maio de 2012

" O barulho da máquina de escrever "


O que levou aquele rapaz a estar usando uma máquina de escrever? O que será que estaria escrevendo e para quem?  Porque estava ali no quarto sentado na cama em vez de estar usando a escrivaninha? Tantas perguntas que me vinham à cabeça ao ver uma coisa tão sem sentido.

Um lugar de loucos aonde eu fui parar, mas também podia me considerar uma louca, viciada, que arruinei a minha vida que já não prestava para nada  mesmo. Já estou aqui a quarenta e dois dias e acho que o pior já passou, mas meu corpo está tão fraco, sinto dores em todos os lugares e nunca sei se o que estou vendo é real ou se estou sonhando.

Coisas estranhas aconteciam todos os dias que me deixavam sem reação. Vivia num mundo onde as paredes pareciam ser transparentes e podia enxergar a todos dentro de seus quartos. Sabia tudo e a minha mente não parava de pensar, os meus olhos estavam sempre atentos ao mais simples movimento. Precisava dormir, mas o sono não vinha e a noite era longa. Uma noite onde não estava sozinha porque muitos também não conseguiam dormir.

O som das teclas da máquina de escrever faziam eco no silêncio da noite. Era o sinal de que muito o rapaz, do quarto ao lado, tinha para colocar naquele papel e aquelas batidas estavam me deixando alucinada, minha cabeça parecia que ia explodir. Queria correr lá e arrancar aquela máquina e quebrá-la toda, mas não tinha forças para me levantar. O tempo ia passando e eu ainda estava de olhos abertos, mas já não me perturbava muito o barulho que passou a me fazer companhia.

O dia começava a clarear quando o toque da máquina parou. Fiquei naquele silêncio e sem sentir devo ter adormecido.  Acordei desesperada com falta de ar e comecei a gritar para ver se alguém vinha me ajudar. Tinha medo de abrir os olhos e ver que algo de muito ruim tinha acontecido.

Estava toda encolhida e tremendo de frio quando entraram pela porta do meu quarto. Começaram a conversar comigo, mas eu não escutava nada do que diziam. Abriram meus olhos, minha boca, colocaram uns aparelhos no meu peito, no meu braço e depois tomei um remédio.

Gosto quando fazem isso porque me sinto melhor e então posso sair para passear.  Voltei lá no quarto do rapaz, mas ele não estava mais lá e nem a máquina de escrever. Corri para perguntar ao enfermeiro que estava no corredor e ele disse que não esteve ninguém naquele quarto e muito menos escrevendo a máquina. Eu falei para ele que tinha visto e escutado o toque a noite toda, mas ele falou que sonhei.

Eu não podia estar ficando louca e tinha a certeza do que vi. Parecia até com meu pai quando tinha que escrever algum artigo para o jornal. Era assim mesmo ele ficava trabalhando a noite toda e lembro que muitas vezes a mamãe vinha dormir comigo na minha cama. Eles sabiam que estavam indo ao encontro da morte, impossível não saber.

Escutei baterem forte na porta e então aqueles homens invadiram a nossa casa, começaram a bater no papai e a gritar. Lembro que mamãe me escondeu debaixo da cama e pediu para eu ficar quietinha. Fiquei com muito medo, mas a mamãe pediu para eu não sair e tinha que obedecer. Escutei muito barulho, gritos e o choro da minha mamãe, mas depois tudo ficou em silêncio e eu acabei pegando no sono. Quando acordei todos já tinham ido embora. O homem me disse que eles foram ao encontro da morte e não puderam me levar.

Vai ver que o rapaz também estava escrevendo para o jornal e foi levar o que tinha escrito antes que os homens ficassem bravos com ele.  Espero que volte para poder perguntar a ele.  Agora vou aproveitar para descansar e dormir sem escutar o toque da máquina de escrever.


Rs

115ª Edição Conto/História
 Tema: "Eles sabiam que estavam indo ao encontro da morte, impossível não saber"- Patrícia Cornwello 

ism

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